A Vingança da Martha Stewart

Fevereiro 27, 2012

Cupcakes de Baked NYC

Enquanto a Nigella Lawson é a minha rainha da tacharia, os rapazes do Baked são os meus ídolos da bolaria, verdade, não ando a trair a Nigella porque tendo a oportunidade ela estaria sempre primeiro, mas há que dar crédito onde ele é devido.

Um dos planos desta viagem era um passeio por Nova Iorque a provar tudo o que era bolo e decidir quais seriam os melhores e sem dúvida uma das coisas que eu ansiava, não só porque tenho um bocado alma de lambona mas também porque me daria a oportunidade de provar coisas que apenas tinha lido ou experimentado fazer sem termo de comparação com o original.

Começou por uma ida até Brooklyn, ainda que longe como o caraças e que implicou uma viagem de comboio, outra de metro e uma de autocarro era sem dúvida aquela que eu mais queria, claro que isto não seria uma simples ida a uma pastelaria/padaria se não tivesse uns certos je ne sais quois pelo caminho. Estávamos nós em pleno autocarro, sentados na última fila porque os putos fixes sentam-se sempre na última fila e a usar o GPS do telemóvel para perceber exactamente qual era a nossa paragem quando um senhor de meia idade olha para mim e pergunta “Where are you boys going?” e dissémos que íamos à Baked e ele respondeu “Oh wow, they have great coffee! Tell ‘em Charlie from *privado* sent ya, they’ll take care of you.”

Dito isto, saca de um tupperware enorme com sandes de pão de forma integral e muita salada e começa a almoçar em pleno autocarro. Senti-me um bocado voyeur de refeição, o senhor era um querido mas decidiu mastigar a bela da sande mesmo à minha frente e mastigava vigorosamente deixando-me numa posição desconfortável em que se eu virasse a cara dava a impressão que eu estava incomodado porque não havia forma natural de ficar noutra posição e o meu companheiro de viagem continuava agarrado ao telemóvel o que me teria dado uma excelente oportunidade para conversar mas tive que partilhar aquele momento íntimo entre o Charlie e a Sande, talvez o threesome mais estranho que tive na minha vida e bem que diz a Samantha Jones que só devemos alinhar se formos a estrela convidada e eu estava ali um pedaço de penetra.

Logo a seguir entrou uma rapariga pela entrada traseira do autocarro e decidiu começar a gritar com o motorista “Don’ worry, don’ worry, I’m gonna pay mah fare!”, mas mais surpreendente do que voz dela parecer a do Tony Danza no “Who’s The Boss” era o perú que ela tinha na cabeça, de cabelo todo apanhado, o hairdo acabava numa extensão que ainda que pertencesse à muy nobre família dos ratos mortos que vemos na cabeça das pessoas por terras lusas mas era na realidade uma espécie de perú… ou traseira de perú, e já que falo em traseira, a dela e a da amiga (que lhe acabou por comprar o bilhete e poderia ter evitado aquela gritaria toda para começo de conversa) fizeram ali um pequeno eclipse solar que me fez achar que o fim do mundo tinha finalmente chegado.

Chegados à Baked, o pior destas coisas é escolher, graças aos deuses que os cupcakes eram pequeninos porque decidímos que podíamos comer um cada, a escolha foi o Sweet & Salty cupcake (bolo de chocolate regado com caramelo, ganache batida de chocolate e caramelo e fleur de sel) e o Lemon Drop Cupcake (bolo de limão recheado com lemon curd e com lemon buttercream), o de limão bateu o de chocolate aos pontos e finalmente fez-se luz para o meu anfitrião que deita fora imensas gemas e eu passava o tempo todo a gabar lemon curd, o que vale é que demora mas chega lá.

A seguir passámos pelo Momofuku Milk Bar, um add on ao restaurante Momofuku conhecido por servir leite de cereais (e quando falo em leite de cereais, não pensem em leite de arroz ou amêndoas, mas sim leite que macerou cereais de pequeno almoço, foi coado e é servido como bebida), pelas Compost Cookies (que levam tudo, desde borras de café a batatas fritas) e por Crack Pie, uma tarte tão saborosa que vicia instantaneamente como o crack… quer dizer, acho eu… Comprei três bolachas, Cornflakes & Marshmallows, Blueberry Cream e Compost), até agora só comi a Compost que ainda que não seja uma má bolacha, estava à espera de contraste nos sabores e fiquei um bocado com um sabor homogéneo que me desiludiu, talvez porque esteja habituado às minhas M cookies que basicamente levam tudo e os componentes conseguem distinguir-se, talvez quando as adaptar consiga resolver. Depois experimentámos Crack Pie e só vos tenho a dizer que é verdade, passei o resto do dia a querer voltar para trás e comer mais uma fatia (só comi metade) e basicamente quando me deitei ainda falava naquilo. E já agora, eu que achava que uma sugar high era um mito urbano porque nunca tinha tido nenhuma… tive… a minha primeira, só me apetecia correr que nem um maluquinho pela rua. Confesso que quando comecei a escrever o artigo ainda não tinha comido as outras duas bolachas, mas entretanto comi a Blueberry & Cream e Cornflakes & Marshmallows e eram bem melhores.

A seguir fomos ao Macaron Cafe que tinha bons macarrons mas eram um pouco densos e fomos alegremente à Ladurée matar saudades de Paris onde ainda meti dois dedos de conversa com a empregada francesa e depois fomos para a parte final da nossa viagem no Sprinkles cuja fundadora Candace Nelson é gabada por muitos como uma excelente criadora de cupcakes, especialmente pela Martha Stewart (só aqui eu devia saber que não ia correr bem, lembram-se deste artigo) e foi horroroso, o frosting era tão doce, mas tão doce que não conseguíamos distinguir os sabores, a versão dela de Red Velvet só me sabia a chocolate e o açúcar intoxicava todo o resto, um casal que lá estava viu o nosso saco da Ladurée e acabou por ir para lá enquanto nós fomos almoçar ao mexicano para tirar todo aquele açúcar.

A noite terminou com neve em Times Square (depois de uma visita ao Toys ‘R Us e uma constatação que a edição do Edward do Breaking Dawn é assustadora) e um regresso a casa, curiosamente ainda tinha pés porque passei o dia enfiado em botifarras e quero deixar-vos com dois conselhos que ainda que se fossem bons vendiam-se, quero que meditem nestes por favor:

Se a Martha Stewart recomenda alguma coisa que vocês não vêm mais ninguém de confiança a recomendar, então fujam.

Nunca experimentem crack, nem mesmo numa tarte, vão ficar viciados, ainda hoje acho que estou a ressacá-la.

Boy I’m stuffed

Fevereiro 25, 2012
Roubado de

Roubado de http://your-restaurant-sucks.blogspot.com

Nos tempos de crise que se fazem sentir ainda há algumas pétalas, por exemplo um dos meus restaurantes japoneses preferidos agora tem um buffet com um preço bastante acessível onde podemos comer sushi até à inconsciência e pagamos um preço fixo, por isso normal seria que o seu equivalente existisse por terras do tio Sam. Depois de um almoço onde o conceito de um hamburger vegetariano mexicano é encher tudo com cominhos e espetar-lhe com dois jalapeños e deixar-me o sabor durante o resto do dia, pensámos que seria boa ideia experimentar um restaurante novo que tinha excelentes reviews online.

Como dizia uma antiga chefe minha: “Comece sempre pelos pontos positivos quando faz uma avaliação e depois enumere os pontos a melhorar.”, é precisamente isso que eu vou fazer. O restaurante fica num bairro em Somerville onde morei em 1999 e fui ver o antigo apartamento onde eu morava, se aquelas paredes pudessem falar contariam histórias de pratos sujos que iam conquistar o mundo e começaram na nossa cozinha, um trauma com passar a ferro e o “Believe” da Cher (não, não vou elaborar), uma tempestade eléctrica que me deixou acordado a noite toda, tal era o barulho dos trovões, a velhinha que se atirava para o chão para processar o supermercado e as manchas da banheira que sairam depois de muita insistência. Ver o bairro fez-me voltar aos meus vinte e dois anos e a uma das experiências que foram fulcrais na moldagem do homem que sou hoje.

Agora que já falei nas coisas boas, vou passar ao restaurante… exacto, já não há mais coisas boas a partir daqui por isso se quiserem fugir agora é a melhor altura… Ainda não? Têm a certeza? Está bem, não digam depois que eu não avisei.

O sítio estava atolado e portanto se quantos mais melhor faz sentido em algumas situações, esta foi claramente uma de “se um elefante incomoda muita gente…”, logo à entrada estavam cinco tipos (podiam ser mais, eles eram um bocado todos iguais a si mesmos) de copo de vinho tinto na mão. Aqui eu pensei “Ah e tal e o camandro, estão a beber um aperitivo enquanto esperam por mesa, mas isto só mostra duas coisas:

1. Tenho que ver mais episódios do Jersey Shore.
2. Sou claramente uma pessoa ingénua especialmente porque não vejo mais episódios do Jersey Shore.

Há alguns restaurantes que não têm licença legal para vender bebidas alcóolicas e portanto ficam na categoria do BYOB (bring your own booze), o que a um português faz um bocado de confusão mas mesmo assim, OK é uma questão cultural portanto nada como trazer aquilo que nos apetece beber, agora trazer vinho tinto que vem num garrafão de plástico de quatro litros… epá, há boa vontade e há boa vontade e eu não tenho assim tão boa vontade, em segundo lugar eu não sou propriamente um connaisseur na fina arte da enologia e São Baco que me perdoe mas vinho tinto com sushi… blergh.

Mas não eram só eles, na mesa em frente estava um casal estranhíssimo, ela super arranjada e até bem gira e ele uma espécie de cream cracker mole com uma t-shirt verde foleira, calças de ganga muito na onda do yo só que versão quarto de Vigor e uns ténis que fariam o CR parecer um rapaz cheio de bom gosto e ele abria a garrafa do vinho, fazia toda aquela pose de girar o vinho dentro do copo sem o deixar respirar, beber e gomitar meia dúzia de baboseiras que o fariam parecer um grande connaisseur a alguém sem qualquer conhecimento de causa ou então cheio de boa vontade (e eu já me deixei disso que as rendas no Inferno estão pela hora da morte) e eu dei por mim a pensar “Sim, é verdade, eu sou viciado na combo t-shirt e calças de ganga, mas se é para causar o mínimo de boa impressão, ao menos um blazerzinho e uma camisola de algodão de manga comprida e uns sapatuxos, se há a possibilidade de haver sexo a seguir, é o mínimo que ele poderia fazer (aqui posso soar extremamente sexista, mas na realidade… hmm… não há realidade… estou a ser só sexista para tornar a situação mais caricata), quer dizer isso e tomar banho, mas não estávamos assim tão perto para eu perceber se havia eau de cheval para ser a cereja no topo do sundae. Um pedaço mais ao lado havia mais um grande conhecedor de vinhos *cough cough* que servia a sua companheira tendo o cuidado de encher o copo até à borda… era só classe.

Atrás de nós no entanto estava um aquário com peixes cor-de-laranja e os filhos de uma enguia com uns bigodes enormes e uns olhos super creepy, quando me apercebi que um destes peixes mutantes estava a olhar directamente para mim e eu comecei a entrar em paranóia e poderia jurar que o peixe era uma versão aquática de um vilão do James Bond e estava a planear a minha morte com requintes de malvadez.

A esta altura vocês perguntam-se: Então e o sushi? O sushi, oh deuses, o sushi, o sushi foi feito com um arroz que não servia para o efeito, ainda estava morno, desfazia-se completamente e tudo o que eles conseguiam encharcar em molho teriyaki faziam-no com força e vigor, por alguma razão surgiu o ditado “Quando a esmola é muita, o pobre desconfia.”, Ainda tentámos salvar a refeiçáo com gelado de chá verde e feijão azuki mas não foi propriamente a mais brilhante das experiências. A sorte favorece os audazes e ainda que não fizesse grande mossa, não favoreceu a nossa carteira.

Miga Mágica e a Rival Roliça

Fevereiro 24, 2012

Se nos perguntarmos como é que Miga dominou as artes do varão, ela não vos saberá responder, pensem num mix com uma música do Flashdance, tipo o Maniac e vejam-na a treinar arduamente, ensinada por Veuve que provavelmente por falta do que fazer dedicou-se à instrução de Miga na muy nobre arte varonil ou será varonal? Sim, é conveniente mas todas as heroínas têm uma fada madrinha e Veuve decidiu fazer de Miga a sua Galateia do strip.

No bar, havia todo um elenco para entreter os convivas, de várias cores e sabores, do muledo mais brejeiro ao mais refinado e entre elas havia Suzy, a estrela do estabelecimento, de cabelos negros compridos e lisos, um bronzeado perpétuo, os lábios cheios de gloss beije e os olhos muito ao espírito da Pam Anderson quando ainda nos lembrávamos que ela existia, Suzy tinha tudo para ser uma amiga de Miga, mas este é um conto de clichés e portanto está-se mesmo a ver que será a sua rival, muito na onda da Gong Li na adaptação cinematográfica de “As Memórias de uma Geisha”, mas em stripper.

Miga e Suzy cruzaram-se pela primeira vez aquando o debut da nossa heroína. Nas casas de banho transformadas em camarins, Miga aplicava o batom em Russian Red com um pincel para ficar absolutamente perfeito. Quando comprou o batom para o trabalho, decidiu-se pelo vermelho frio e intenso, sentiu-se tentada em escolher um vermelho mais alaranjado em honra da avó mas acabou por escolher um vermelho desligado de qualquer sentimentalismo, além disso se tinha sido bom para a Madonna e o Marilyn Manson, só lhe poderia trazer sorte.

Borrou o batom quando de repente a sua cadeira estremeceu com o arremessar da mala de Suzy.

“Epá, não se pode dar um pontapé numa pedra que aparece logo uma gaja nova!”, disse Suzy com o típico ar de desdém “Eu já tinha ouvido dizer que a chefa tinha contratado uma loira mas estava à espera de algo com mais salero.”

Miga não respondeu e já estava a limpar o manchado com um cotonete quando Suzy lhe virou a cadeira e a fitou nos olhos “Como é que te chamas mesmo?” e então ela sorriu e disse “Miga.”, Suzy soltou uma gargalhada “Não podias ser mais pirosa!”, ao que Miga voltou a sorrir enigmaticamente “Podia, mas se escolhesse Suzy ia baralhar as pessoas!”, perante a afirmação, Suzy aproximou-se da cadeira de Miga e riu-se “Engraçadinha, já vi muitas como tu irem e virem… Eu continuo cá para contar a história, vamos ver quanto tempo duras.”

Antes que Miga pudesse responder, Veuve entrou nos camarins e disse “Então meninas, portem-se bem e por meninas refiro-me a ti Suzy.”

“Até parece!”, respondeu Suzy com um ar forçosamente inocente.

Miga retocou o baton e lembrou-se de uma das festas de Carnaval da sua escola primária, estava vestida de bailarina espanhola e tinha o cabelo completamente desarranjado e soluçava copiosamente, estava trancada na casa de banho da escola quando de repente ouviu um pigarrear muito familiar vindo do exterior, a sua  avó fumava vigorosamente o seu cigarro e dissipava o fumo agitando a mão esquerda ainda que as janelas da casa de banho estivessem fechadas e a casa de banho já estava contaminada pelo cheiro do tabaco.

“Avó… a professora vai ralhar comigo.” disse Miga entre soluços a tentar recompor-se.

“Só podes estar a brincar,” respondeu a avó sem sequer olhar para ela “se a tua professora tem algum problema que eu fume, ela que venha falar comigo ou então que faça estas festinhas serem mais curtas que não há quem tenha pachorra, aliás… vê-se porque a desnaturada da tua mãe nem cá pôs os pés.”

A avó sempre tinha algo de colorido a dizer sobre a mãe dela, já era tão vulgar que Miga filtrava os comentários, a mãe também nunca tinha nada de bom a dizer sobre a avó e ela já tinha desistido de tentar perceber, fazendo como o seu pai que adoptava uma posição comodamente neutra e não dizia absolutamente nada, depois de retocar o baton e usar a borla de pó para retirar o brilho da testa, virou-se para a neta e ficou estarrecida com o cabelo desarranjado, a peineta fora do sítio, a maquilhagem toda a borrada e o baton por todo o lado.

“Que horror, não bastava a tua mãe ter tido o mau gosto de te vestir de dançarina espanhola mas também isso já é demais.”, a avó tirou um lenço de papel da mala e começou a limpar-lhe o rosto freneticamente, Miga sentiu-se tentada a pedir à avó que fizesse menos força mas parou a tempo. “Afinal de contas, o que é que te aconteceu?”

Miga tinha finalmente a sua oportunidade, ninguém lhe tinha perguntado até agora o que é que tinha acontecido, as auxiliares tinham fingido que não se tinha passado nada porque a directora as tinha instruído a evitarem qualquer situação que pudesse ser desagradável para os pais. Verdade que a avó não era propriamente o melhor colo para chorar as mágoas, mas naquele momento antes aquele colo que nenhum.

“Foi a Carolina Magalhães, ela tem um vestido igual ao meu e queria que eu não aparecesse na festa…”

A avó franziu o sobrolho e acendeu mais um cigarro “Bem, verdade seja dita, uma desgraça nunca vem só e o mau gosto da tua mãe é como a culpa, não morre solteiro.” Miga não percebeu exactamente o que é que aquilo queria dizer, mas como envolvia a mãe dela certamente que não era nenhum elogio. “Seja como for, a Carolina é aquela loira gordinha com um vestido igual ao teu… tens que ter paciência, vai sempre haver alguém que não te suporta porque tem inveja.”

“Mas… porque é que vou ter que ter paciência? Eu até lhe batia mas ela é maior que eu.”, a avó inalou profundamente e olhou para ela com um ar reprovador “Bater é algo que só alguém fraco de espírito faz, o melhor que tens a fazer é provar que és melhor que ela e mesmo que ela te bata, no final do dia ela nunca vai deixar de ser como é e tu vais sempre ser muito mais bonita.”

Na altura, Miga não percebeu completamente o raciocínio da avó, mas ao longo da sua vida foram sempre aparecendo carolinas aqui e ali que acabavam sempre por se tornar medíocres e a quem Miga nunca ligava porque achava que viverem com elas mesmas já era castigo suficiente. Naquele dia, as mãos experientes da avó transformaram-na, ela voltou a pentear-lhe o cabelo e colocou o pente novamete e maquilhou-a como só ela sabia fazer, com um risco bem definido, os lábios carmim e o blush que parecia o toque final mágico que fez com que o pequeno incidente desaparecesse e Miga não se reconheceu quando olhou ao espelho, a avó resmungou algo como “se não consegues vencê-los junta-te a eles” e Miga desfilou no cortejo da escola, sim tinha um vestido exactamente igual ao da Carolina Magalhães, mas ela estava resplandescente e por isso não tinha nada a ver.

E Suzy, não passava de mais uma Carolina, naquela noite Miga subiu ao palco, a música começou a tocar e a vida dela nunca mais seria a mesma.

 

My Little Vacation

Fevereiro 24, 2012


Nesta viagem têm havido algumas personagens com quem me cruzei que vão ficar no meu cromos Hall of Fame, um deles foi o agente dos serviços de fronteira que esmiuçou o motivo da minha vinda aos EUA, eu claro como sou um apologista de que a verdade há-de ser o meu escudo tive a brilhante ideia de lhe dizer que entre outras coisas, iria a uma convenção de animação japonesa, fica aqui uma transcrição do meu diálogo que marcou a minha chegada:

Ele: So, you here for business or pleasure.
Eu: I’m on vacation, so pleasure.
Ele: What will you be doing?
Eu: Visiting a few cities and heading out to a convention.
Ele: A convention! So you’re here on business?!
Eu: No, it’s a japanese animation convention.
Ele: I don’t follow you.
Eu: It’s a convention where fans of japanese animation gather and meet artists and get autographs.
Ele: What’s japanese animation?
Eu: Err… it’s animation made by japanese.
Ele: And what do you guys do there exactly?
Eu: We get to meet the actors…
Ele: There are no actors, it’s cartoons.
Eu: The actors kind of give the voices to the cartoons.
Ele: And you people go to a convention of this.
Eu: Yes.
Ele: So… it’s a Star Trek convention?
Eu: Yes… it’s a Star Trek convention. (aqui já eu tinha desistido)
Ele: So, it’s just a bunch of nerds.

OK, na minha cabeça eu queria ter dito “I did want to go to the fat ass convention, but unlike you, I’m not 400 pounds.” que teria sido sarcasticamente gratificante e certamente alguém mais cabra do que eu na blogosfera faria porque alguém tem que ser a Imperatriz da Cocada Preta, mas eu preferi a gratificação de gozar as minhas férias. Esta viagem teve algumas coisas estranhas, fui revistado duas vezes (não apenas eu, mas todos os passageiros do meu vôo), vi três filmes absolutamente pavorosos (“I don’t know how she does it”, “Footloose” e “What’s your number”) e constatei que para a TAP, comida vegetariana = vegetais espapassados sem tempero e margarina Becel para pôr no pão.

Durante a convenção partilhei quarto não só com o meu anfitrião mas também com um rapaz dez centímetros mais alto do que eu, que adora a nova série de My Little Pony (também eu) e que está a construir um robot gigante no celeiro da quinta dele (não estou a brincar, ele está a construir um robot gigante) e o meu jantar de aniversário foi passado no Nando’s, um restaurante especializado em frango assado onde comi um pastel de nata atroz.

Também me cruzei com um rapaz vestido de Fluttershy (vede o pónei acima), com os olhos esborratados de eyeliner preto a dizer que era constantemente confundido com uma rapariga (certamente uma rapariga cheia de pêlos faciais) e eu a manter um ar muito sério e um bocado espantado. Fui voluntário num workshop de maquilhagem que consistia em dar um tom de pele sobrenatural em que não só me calhou a cor verde (quem me conhece sabe que a amo de paixão) mas também tive que usar sombras dos chineses que também adoro particularmente mas que foi engraçado porque me pôs à prova sem o meu arraial de pincéis ou as minhas marcas fetiche.

Conheci um restaurante de batatas fritas gourmet e aquilo não falamos de batatas de pacote (ainda que eu adore um bom pacote… de batatas) preto metalizado mas sim batatas com parmesão e óleo de trufas, batatas-doces fritas (finalmente uma forma para eu gostar de batata doce) e um Red Velvet Cake que tinha tantos add-ons que só me apetecia chorar, o meu continua a ser o preferido.

As minhas idas às casas de panquecas têm sido ispantosas, em primeiro lugar porque… duh PANQUECAS, em segundo lugar porque da segunda vez tivémos um empregado zombie (ainda por cima estávamos a discutir o The Walking Dead) e nas duas vezes seguintes tivémos a adorável Nardi que era fabulosa em tudo, desde o glitter que abundava na sombra ao lápis de lábios castanho escuro com baton vermelho vivo ao facto de, na segunda vez, se sentar ao nosso lado e dizer para irmos darmo uma votação perfeita para ela receber um aumento e nós obedecemos, ela tinha-os no sítio e não teve qualquer problema em dizê-lo. Claro que nem tudo são rosas e quando nos perguntou por experiências passadas e nós falámos no empregado zombie ela respondeu com: “Ah, o meu irmão!”, o que tendo em conta a nossa pontaria, já seria de esperar.

Por agora é tudo, tentarei partilhar mais, mas não tem sido fácil, o que vale é que a blogosfera tem muito para vos entreter.

xoxo Eolo

Cozinhar por Números

Fevereiro 13, 2012

Cozinhar com o vento

Cá por terras eólicas, cozinhar é relativamente fácil, embora não tenha os apetrechos todos (sim termómetro de açúcar, estou a falar contigo) , estou relativamente bem equipado (fora de contexto isto quase soa a ordinarice) e há coisas que por norma fazem parte da minha dispensa tipo três variedades de açúcar, baunilha, leite inteiro, muitos ovos e paletes de manteiga sem sal, aliás não estão bem a ver a minha dissertação em estilo stand-up num daqueles supermercados que nos dizem bom dia a qualquer hora que lá formos porque não existia manteiga sem sal nas prateleiras e eu vivo num bairro em que 80% da população é dos setenta anos para cima, foi muito ao género do “Ah, mas tem Becel!” e eu “Sim, mas ou as suas papilas gustativas estão desligadas ou que eu saiba, Becel não sabe a manteiga nem aqui nem no Bangladesh!”, na altura fui presenteado com um ar nitidamente de “Não tens mais nada p’ra fazer além de vir chatear com manteiga sem sal e invocar inclusivé uma condição etária que não te pertence!”, mas a verdade é que agora há sempre manteiga sem sal, o meu lado egocêntrico acha que alteraram a compra nos produtos lácteos porque eu intervi naquele dia, mas o meu lado realista calcula que houve mais pessoas que reclamaram.

Mas como a vida nos traz sempre um outro desafio (embora não haver manteiga sem sal no supermercado ao pé de casa já é por si um desafio hercúleo), quis a circunstância que se fizessem panquecas sem balança (sou chato com peso, se são 113g de manteiga, são 113g de manteiga e até costumo ser frequentemente gozado quando o indicador tem uma grama a mais), sem varinha mágica (para grumos chatos) e com um copo medidor duvidoso, duvidoso porque só tinha medidas de 1 cup sem os intermédios.

Lancei mãos à obra com a ajuda do senhor Ruhlman converti o avoir du poids em “avoir du corps” (tinha que testar o método dele, já tinha o livro há pelo menos dois meses) e lancei-me às panquecas. Os rácios do livro são por peso, o que poderia ter acabado com a tarefa naquele momento, mas a aplicação do senhor tem um conversor que provou ser indispensável, era mais uma questão de gerir a bateria do iPod.

Eu acredito piamente que qualquer pessoa que me visse naquele momento achar-me-ia louco (também sei que qualquer pessoa que me conheça sabe que eu sou louco, mas ao longe ainda vou conseguindo enganar), ora media água num jarro de liquidificador, ora passava a água para um copo, ora acenava com a cabeça, ora deitava a água fora, enxaguava o copo e metia farinha dentro do copo.

Um copo de 0,25 l, um garfo, uma batedeira no mínimo e algum engenho criaram talvez das coisas que mais adoro, a minha comida de brunch favorita (regada de maple syrup) e que criou doces memórias nos meus sobrinhos, e que marcou uma manhã com muitas gargalhadas (e panquecas) e talvez com o meu ar estupefacto a ver panquecas cheias de Nutella (sim, eu sei que é ambrosia num frasco, mas há coisas que sou absolutamente purista) enquanto eu regava as minhas com xarope e via as notícias. Se todas as conversões do senhor Ruhlman resultarem como a das panquecas, então tem um fã para a vida, não só me ajudou a ultrapassar as minhas dificuldades tecnológicas como me relembrou que na tacharia, os confortos da era moderna facilitam, mas quem faz a magia é sempre a bruxa da cozinha, desde que haja maple syrup, claro está!

Cansei de Tentar Ser Sexy

Janeiro 18, 2012

Claramente estou a passar por uma crise de identidade, ao ler posts anteriores do Sabores do Vento, chego à conclusão que há todo um lado lânguido e excessivamente lascivo que não partilho com vocês.

Sim, está bem, até vos ouço dizer “agradeço como se aceitasse” mas afinal de contas não podem negar uma ciência que desconhecem e como não consigo transparecer toda uma luxúria exacerbada naquela que é talvez a escrita mais sem nexo da zona da Grande Lisboa, cansei de tentar ser sexy e vou mas é mesmo sê-lo à força.

Dizem as grandes mentes da sensualidade que ser sexy é mais uma questão de savoir-faire do que propriamente uma colecção de atributos físicos. Concordo absolutamente, afinal de contas a Megan Fox para mim nunca será sexy e terá sempre um ar de bardajona que embora satisfaça as fantasias de muitos, para outros ela terá sempre aquele ar de quasi-temptress que apenas revela poucos hábitos de higiene íntima… alegadamente.

O primeiro desafio foi conseguir ser sexy no meu dia-a-dia, no emprego confesso que não consigo, este ambiente muito corporate mata toda e qualquer lascívia que eu possa ter e portanto é depois de me livrar do fato e gravata que sai cá para fora o meu lado animal… no Continente.

Não há melhor sensação que a passadeira rolante que permite o acesso ao centro comercial, aquele movimento rítmico e deslizante sob os meus pés, os perfeitos desconhecidos vestidos à gangsta com um faux-hawk de cabelo carapinha descolorado em metade do rosto levam-me até ao extâse, não percebi se era a carapinha, o casaco de fato treino verde bandeira com capuz ou as calças largas com os boxers rotos no elástico a ver-se, mas todo eu fiquei trepidante.

Os corredores do Continente lembram-me o Labirinto de Creta mas em versão supermercado e sem me perder no interior, os meus dedos pegaram na pistola com o leitor de códigos de barras após duas tentativas de leitura no meu cartão de cliente, a sorte favorece os audazes e a máquina não teve como resistir, os meus olhos procuravam insistentemente pela embalagem de Kellog’s Special K mas a embalagem familiar de 750g porque sou nitidamente uma pessoa lambona e sorria de forma marota para as embalagens com chocolate preto, maçã e iogurte, frutos vermelhos, chocolate de leite e de forma trocista deslizava com os meus dedos pelos contornos de cartão como se a qualquer momento fosse pegar nelas e enfiá-las na cesta coxa que só tinha uma roda mas acabei por me render ao clássico.

Perto do mesmo corredor estava o corante alimentar, estou cheio de ganas de fazer Rose Red Velvet Cake, de sentir a sua migalha macia e húmida contra os meus lábios e portanto preciso do frasco mágico que lhe concede a sua dor sedutora, quando apontei com a pistola contra o código de barras ligeiramente “embaciado” obtive a mensagem “coloque o artigo de lado e mostre ao assistente”…

Fiquei indeciso entre crème fraiche e queijo Philadelphia, sim porque enquanto uns usam natas, eu preciso da mesma coisa mas em francês (nitidamente mais sexy) e coloquei na cesta, deslizando freneticamente pelos corredores em direcção à caixa do pay and go, flirtando com a assistente que teve que me desbloquear as compras, as más línguas diriam que ela é paga para fazer aquilo, eu como bom realista digo que é porque sou giro, fui abordado por outra senhora que ainda estava eu a colocar as compras nos sacos de plástico, já ela estava loucamente a deslizar códigos de barras pelo leitor, olhou para mim e disse “Tão grande!”, eu sorri de volta e disse “As garrafas de dois litros de 7Up são mais baratas.”

Cheguei a casa, a fazer malabarismos com os sacos das compras, um momento altamente bondage porque entre ter três sacos, a mala, o saco da comida que levo para o emprego e as chaves, é preciso quaser um artista do Cirque du Soleil para conseguir entrar.

E ele estava à minha espera, obstinado, pesado e provocador, sabendo perfeitamente que o detesto e que daria tudo para nunca mais o ver mas que volto sempre para ele… o meu aspirador. Como sempre incrivelmente teimoso, já ligado ainda eu não tinha acoplado o tubo, levou-me à exaustão, as gotas de suor escorriam pelo meu cabelo e eu continuava exercendo o meu peso sobre ele de forma a limpar os tapetes de forma eficaz, depois usei os dedos dos pés para tirar um pequeno papel que se recusava a ser sugado do chão e usei os dedos para empurrar as folhas da cameleira que fui demasiado preguiçoso para apanhar.

No final da noite dei por mim encostado à cama, a ver uma série de televisão enquanto queijo flamengo derretido deslizava pelo garfo à medida que eu penetrava a minha omelete, devorando-a como se não houvesse amanhã. A série inglesa começou e terminou sem que eu desse por ela, demasiado tantalizado pela gelatina de ananás que teimava em cair da colher e pensei… tenho que ir dormir, já são horas.

Miga Mágica e o Varão Varejeiro

Dezembro 8, 2011

Miga acendeu o cigarro e inalou profundamente enquanto esperava para ser chamada para a entrevista no clube, num mundo completamente alternativo de fantasia ela poderia sempre dizer que era um clube in de Lisboa, que havia todo um rigor e qualidade, que era só para uma clientela seleccionada, mas no fim estaria a enganar-se redondamente. Era um clube como tantos outros que ela ouviu descritos pelos colegas ou em reportagens com “alto” rigor em segmentos de cinco minutos do telejornal. Pelo menos o local era asseado.

Para trás tinha ficado toda uma existência com a qual já não se identificava minimamente, como se a vida dela fosse um cliché de novela das oito em que existiam duas irmãs gémeas e uma assumia a identidade da outra, transformando-se a pouco numa terceira identidade. Levada pelo fumo do tabaco até à sua infância numas férias de Verão passadas em casa da avó, Miga relembrou-se do primeiro dia em que assumiu uma identidade por conveniência de outrém. Não algo tão rebuscado como uma irmã gémea, mas com um petit nom que ela sempre odiara: Miga.

“Mas o meu nome não é aquele!”, ela chorava inconsolável, a avó inalava o cigarro e suspirava ao exalar, “Ai querida, já sabes que a tua prima Sara é atrasada mental, não sei porque é que te chateias.”, a criança ao ouvir isto ficou estarrecida, a Sara de facto era diferente das outras crianças, de temperamento instável, com uma visão das coisas totalmente alienígena e alguma dificuldade na expressão verbal, de facto ela sempre achou que a prima era diferente mas como estava sempre a ficar surpreendida pelo facto de tudo ser permitido à prima, nunca tinha pensado muito no assunto.

“Mas avó…”, ela disse quase como se andasse em bicos dos pés “A prima Sara…”, a avó apagou o cigarro de forma determinada mas deixando-o ligeiramente a fumegar como se de incenso se tratasse e pegou na cara dela pelo queixo enebriando a criança com o cheiro a cinza que provinha das unhas vermelhas. “Está na altura de perceberes que aquela criança não é normal, o que não admira, afinal de contas aquela sopeira com quem o teu tio casou não trouxe nada de extraordinário para esta família.”

Não era a primeira vez que ela ouvia a tia Gina descrita como sopeira, verdade que só a avó é que se referia a ela dessa forma e provavelmente referia-se à forma exacerbada de falar, o gesticular frenético, as nódoas nas blusas e as gargalhadas estridentes.

“Seja como for, a tua prima não consegue dizer o teu nome, Miga é provavelmente a coisa mais parecida que ela consegue dizer e acho que devias deixar de fazer fitas quando ela te chama Miga, afinal de contas, tu não és atrasada mental.”, e lá estava outra vez aquela expressão para descrever a prima que encheu a pequena criança de um orgulho surpreendente e de repente tudo fez sentido na cabeça dela e ela parou de soluçar, a avó limpou as lágrimas com os dedos e o cheiro tomou conta novamente dela, “E nunca te esqueças, uma senhora não chora na presença de outras pessoas.”, o que pensando bem era uma forma de vida da sua avó, nem no funeral do filho Miga a tinha visto verter uma lágrima que fosse e preferiu pensar que a avó estava destroçada. A partir daquele dia, de forma a não melindrar a prima, Miga não voltou a fazer birras quando a prima a chamava daquela forma, assumindo assim uma nova persona, conveniente para a prima que acabou por se tornar uma conveniência para a família que achou que ela acabou por gostar.

Uma mulher alta de pele negra aproximou-se da mesa de vidro onde Miga estava sentada, após uma inspecção mais próxima ela apercebeu-se que a entrevistadora não era uma mulher mas cuja pose e toda a apresentação fazia dela uma rainha, os cabelos negros, lustrosos e lisos (provavelmente comprados), as bijuteria cara cintilante, a manicura francesa feita com verniz bordeaux e um risco preto e o bustier que dominava não só o peito de silicone mas como o look em geral impunham respeito.

“O meu nome é Veuve Clicquot.”, ao ouvir o nome “artístico”, Miga ia começar a esboçar um sorriso mas parou assim que viu os olhos a semicerrarem, “Desculpa lá teres esperado tanto tempo mas não deu para vir antes, o que vale é que se neste país o atraso fosse crime estava quase tudo de cana!”, Veuve deu-lhe uma pancada suave com as unhas imponentes e soltou uma enorme gargalhada, não muito diferente das da tia Gina.  “Antes de mais, não vens p’ráqui depois de teres achado que aquelas coisas não acontecem só à Julia Roberts no Pretty Woman, pois não?”, Miga ficou uma bocado estupefacta “Mas, a Julia Roberts fazia de prostituta, não de stripper!”, Veuve sorriu mostrando os dentes todos “Tens a certeza que é para isto mesmo que queres vir, pareces demasiado esperta, nem fazes ideia do que me entra por aquela porta.”

O resto da entrevista decorreu normalmente, “Esquece aquelas merdas do tens que ser a fantasia de todos os homens e qualquer outro chavão que ouviste, tens que ser interessante, tens que fazer com que eles queiram mais e mais, e quando estiverem a falar, sorris e acenas e não te esqueças de pedir as bebidas mais caras. Isto é como ser jogador de futebol, não dura para sempre por isso aproveita enquanto puderes.”, enquanto Veuve falava e falava, Miga observava uma enorme mosca varejeira pousada no varão que estava no palco, na altura o varão parecia mais o Everest ou os Himalaias e a mosca tinha como presságio visitas… provavelmente os patronos.

Para grande espanto de Miga, que continuava interessadíssima, Veuve disse-lhe para ir para casa pensar e depois ligar-lhe para dizer se era mesmo aquilo que ela queria. A caminho de casa, viu uma mulher com sacos de compras que parecia meia atrapalhada e ofereceu-se para ajudar, a senhora olhou para ela e sorriu “Podes cobrar. Tens que viver.  Aqui o que está em causa não é o dinheiro, é o milagre. E eles vão continuar a acontecer.”, assustada com a citação da Alexandra Solnado, Miga sorriu e afastou-se, entrou num café, pediu uma bica curta em chávena fria, bebeu-a sem açúcar e pegou no telemóvel, ligou para Veuve a perguntar quando é que podia começar.

Ainda iria demorar para que Miga o visse com aquele ar desconfortável, transpirado e cheio de tiques, mas nunca se iria esquecer da segunda coisa que ele lhe perguntou, ao ouvi-la dizer que se chamava Miga, “Não, a sério, como é que te chamas?” e ela completamente desarmada respondeu: “Margarida”.

Miga Mágica e os Marlboros Maravilhosos

Dezembro 1, 2011

Miga acordou logo pela manhã, quer dizer, tanto podia ser de manhã como de noite, mas a verdade é que pôs o despertador para as sete porque se não pusesse nunca chegaria ao trabalho a tempo, por isso foi logo pela manhã.

O barulho da passarada da sua rua, uma daquelas ruas com nomes de cidades em África que só quem lá viveu é que sabe onde eram, invadia o seu quarto juntamente com a sirene do camião do lixo. Miga deu por si a pensar que quando o camião do lixo vinha depois da meia noite, o barulho incomodava-a e ela tinha que voltar a ligar a televisão para ver o “Die Hard With a Vengeance”, mais uma vez e pensar que quem devia ter ganho era o Simon Gruber. Mas agora que o camião do lixo vinha de manhã, isso também não a satisfazia, afinal de contas ela queria fingir que estava a ouvir as notícias na televisão e aquela sirene misturada com os pássaros incomodava-a.

À medida que lavava o seu cabelo banal com um champô de supermercado pensava no dia que se avizinhava como caixa num hiper, ainda que não fosse uma função para lá de estimulante, Miga sentia-se a fazer parte do quotidiano das pessoas cujos produtos deslizavam pela borracha mal lavada  da caixa, pequenos segredos que faziam blip ao serem reconhecidos pelo leitor e passavam a ser do freguês, porque é que uns comiam Oreos normais e outros eram lambões e compravam das que eram cobertas com chocolate de leite? É que entupir artérias por entupir artérias, o recheio das Oreos já era Crisco com aroma a baunilha e açúcar, não precisava necessariamente de um empurrão. Mas Miga fazia parte de uma pequena elite que sabia o que era Crisco e embora ela tentasse recrutar mais e mais pessoas e quisesse destruir aquele conhecimento estupidamente hermético, ninguém queria saber e além disso, ela odiava as embalagens das Oreos cobertas com chocolate, nunca passavam no leitor e ela tinha que introduzir o código à mão numa maratona digital em que o freguês começava a bufar ligeiramente como se a culpa fosse dela, como se ela quisesse ter que esforçar a vista para introduzir aquela sequência em que invariavelmente se iria enganar.

O som do secador abafou o barulho que vinha da televisão que estava ligada no quarto e ela deu por si à mesa da avó no lar decrépito onde tinha acabado os seus dias, cujos dedos trémulos seguravam um Marlboro Lights mas que ao inalado lhe dava todo um brilho especial ao seu olhar, era como o portal de tempos de outrora, antes do pai de Miga ter derretido a fortuna da família no Bingo do Sporting.

“Ai Miga… vai fazer qualquer coisa a esse cabelo.”, dizia a matriarca ignorada depois de deitar o fumo cá para fora, “Podes estar na penúria mas não ser simplória. No meu tempo era impensável sermos vistas assim!”

“No teu tempo não havia tampões com aplicador…”, respondeu Miga até se aperceber do que tinha dito. A matriarca semicerrou os olhos como uma áspide prestes a atacar, ou pelo menos da forma como nós achamos que elas semicerram os olhos antes de atacar e perguntou “O quê é que disseste?”, Miga aproveitou a deixa e corrigiu “Mal tenho tempo para usar o secador!” e a senhora deu um suspiro de alívio, mas Miga nunca sabia se os lapsos eram entendidos ou não.

“Não devia fumar…” disse enquanto tentava agarrar a mão livre da avó numa tentativa de um gesto de carinho, a senhora percebeu e afastou a mão, “Porquê? Ainda me vão matar? Olha, menos uma despesa, ou achas que a vida ainda me aguarda muitas surpresas depois de dez anos aqui dia-após-dia? Tu continuas solteira e deves ficar assim, mas com esse cabelo não admira! E por um lado ainda melhor, eu já mal tive paciência para dois netos, quanto mais aturar os bisnetos vestidos em roupas pirosas enfiados naquelas coisas que parecem ovos , no meu tempo pagava-se a pessoas para nos criarem os filhos.”

“Mas os cigarros só lhe fazem é mal!”, ela reforçou genuinamente preocupada com a mulher enrugada, de baton cor de laranja e muito blush e cujo cabelo amarelo da nicotina tinha alguns vestígios de cinza que flutuavam no ar, libertos pelo tremelicar constante, ela tossiu, voltou a tossir, limpou a boca com um lenço de papel já manchado de laranja, “Já te disse, não estou particularmente preocupada em viver muito mais e estes… são o único luxo a que me posso dar, lembram-me noites de canasta e pequenos cálices de Porto com as minhas amigas a falarmos da vida de alguém que não estava presente.” e ouvindo isto, Miga desistiu pela enésima vez de convencer a avó que fumar lhe fazia mal. Afinal de contas, esta era a mulher que só comia bróculos se os talos tivessem sido tirados minuciosamente.

“Para ti isto é um veneno, mas para mim estes Marlboros são maravilhosos. Além disso são Light, fazem menos mal.”

Miga ainda tentou relembrá-la que agora eram Gold e não Light, mas desistiu antes de começar e com isto regressou à pastelaria do centro comercial “É um Compal de pêra e um pastel de nata.” disse ao senhor por trás do balcão e teve que o gritar porque o barulho da conversa ao redor aliado à máquina do café fazia com que o bis do pedido fosse um ritual. E durante um segundo, ela olhou para a máquina dos cigarros e viu os Marlboros.

Já na caixa, aproximou-se a primeira freguesa, Miga sorriu e perguntou “Tem cartão de cliente?”, a senhora respondeu com um ar distante “Quantos menos as pessoas sabem, mais elas teimam que sabem.”, Miga ficou confusa, então a freguesa agora respondia-lhe com frases do Osho?!?, ela pigarreou e repetiu “Não percebeu, quero só saber se tem cartão de cliente?” e a cliente sorriu ainda que com o mesmo ar distante “A vida é uma piada cósmica…”, face à segunda citação do Osho, Miga encolheu os ombros e começou a passar os produtos pelo leitor e ao ver o creme depilatório de marca branca sorriu “Ah, vais ficar com os pelos nas virilhas encravados, depois quero ver se continuas a citar Osho ou se passas para a Alexandra Solnado.”, a mulher cheirava a uma mistura de neroli com flor de laranjeira e quando tirava as coisas da mala para encontrar a carteira, tirou um maço de Marlboro e Miga ficou estupefacta, os cigarros perseguiam-na.

À hora do almoço, enquanto o Anacleto do talho aquecia um guisado que perfumou a copa inteira deu por ela a ponderar se conseguiria almoçar sem respirar para não ficar atordoada com o cheiro a comida requentada, não é que ela não gostasse de guisado, mas naquele instante a copa cheirava a peixe frito, arroz de tomate, guisado, lulas recheadas, bacalhau com natas e bifinhos com natas. Ela comia sopa de legumas mas estava fria, na sua cabeça se a tivesse aquecido no mesmo microondas,  era como se tivesse macerado todos os outros alimentos no dela.

Anacleto sentou-se ao pé dela e começou o diálogo nervoso do costume, a crise, reality shows, será que o primeiro ministro usa laca e depois perguntou-lhe: “Queres jantar um dia destes?”, ela sorriu e respondeu “Costumo jantar todos os dias, não é uma questão de querer, é um hábito. Mas, sim, porque não!” enquanto ele amassava um maço de Marlboro nas mãos e foi então que Miga visualizou tudo, o vestido que mais parecia um suspiro, a família do Anacleto, os miúdos estrábicos como ele e olhou e disse “Porque não…”, correu para o balneário, trocou de roupa e saiu porta fora sem dizer ai nem ui.

Passou na tabacaria, comprou um maço de Marlboro e meteu-se num cabeleireiro, quando saiu, de cabelo loiro e triunfante, acendeu um cigarro, engasgou-se e deixou-o cair. Acendeu outro, inalou, travou, exalou e disse para si mesma, “Tinhas razão avó… sempre tiveste razão…”

Anos depois, Miga casou com um cromo financeiro, não era giro, tinha uma conversa de seca, o sexo parecia misturado com dois comprimidos de Tramal Retard e havia dias que lhe apetecia dar um tiro na cabeça, mas naquele dia quando o viu a fixá-la à medida que ela deslizava pelo varão, ela soube que era o homem com quem ela iria casar, mas isso… é uma história para outra altura. E tudo isto graças a um maço de Marlboros Maravilhosos.

À mesa do café…

Outubro 18, 2011

Estacionei o meu carro em frente ao nosso café número um… as grades corridas, as mesas tapadas e as cadeiras empilhadas pareciam enviar-me uma mensagem subtil, alguém intoxicado por aquele que é o lancinante senso comum diria: “Está fechado.”, eu pensei “Hmm, não abre às Terças? OK, há sempre o nosso café número dois.” e vi-te abrir a porta do prédio, com os teus longos cabelos ruivos que ladeavam o teu rosto de porcelana ou poderiam ladear o teu rosto de porcelana se não tivesses o cabelo apanhado. Abracei-te naquele que era um longo abraço de quem não te vê há semana e meia, ainda a semana passada falávamos de Fleur de Violettes e Margaritas e dei por mim completamente assolado pela visão do teu ser, vestida de ébano, minha Nix, mestra da noite, irmã de Erebus, verdes são os campos, da cor de limão, Assim como os olhos… vocês percebem!

Olhaste para mim como nunca olhaste, olhaste com o teu ar de Quinta, quando sabias perfeitamente que era Terça mas mesmo assim desafiavas-me, os óculos ligeiramente descaídos no teu nariz arrebitado com o teu ar trocista. Eu não esmoreci, enfrentei o teu olhar titânico e disse “Vamos ao outro café? Este está fechado.”

Ao contrário do teu, o meu cabelo estava solto e não tinha volume, não que o teu tenha volume visível porque estava apanhada e hoje lavei o cabelo e deixei-o secar ao ar e foi um bocado aquilo que se viu, de facto ele tem dias que parece bem mais impressionante e selvagem, mas hoje tinha um ar de ter personalidade, cada madeixa para seu lado. A tua era maior que a minha, mas é sempre, fico sempre mesmerizado pelo teu ar blasée quando te debruças sobre a sua generosa abertura e tiras o telemóvel com o toque do Star Wars, só consigo sorrir quando penso “Jamais encontraria ali o meu… perdia-se!”.

Chegamos ao café com o nome em forma de trocadilho da peça icónica do António José da Silva, vimos que o muledo ocupava as três mesas que costumamos ocupar… quer dizer, não ocupamos as três, mas nem sempre está a mesma disponível, pelo menos costuma estar sempre uma e sentamos sempre naquela que está a rabo de sentar. Entrámos e pedimos dois cafés, uma tosta de queijo e sentámo-nos, mas eu fiquei de costas enquanto tu fitavas a montra como um falcão caçador, mestre dos céus, senhor das aves de rapina, penereiro-das-torres e mandavas mensagens subliminares às duas tias que bebiam o gin tónico e ainda não tinha acabado de me sentar quando seguraste na minha mão trémula e ordenaste “Vamos-se-nos”. Eu apenas tive medo de pegar na minha, ainda bem que pequena, e dizer à senhora do café que nunca tinha visto antes embora lá vá há mais de um ano “Estamos lá fora.”.

As tias ainda não tinham saído, mas aquela era uma das nossas mesas, onde partilhámos cafés, cigarros, mais cafés, mais cigarros, de vez em quando pedes qualquer coisa para comer tipo uma merenda mas hoje… eu tinha pedido uma tosta para além dos dois cafés. Olhei com um sorriso maroto nos lábios para os copos de long drink com gelo, limão e as duas coisinhas compridas de plástico que costumam ter as long drinks mas eu nunca me lembro do nome. Misturadores? Coisinhas de Plástico? Qualquer coisinha? Seja como for, olhei para ti e disse: “Olha para nós, gin tónico, vamos parecer duas tiazorras!”.

O teu fitar violentava-me e perguntaste-me “Então? Continuamos sem fumar?” e eu pensei “Sim, desde seis de Setembro.” e apareceu a senhora, a tal que nunca tínhamos visto antes e trouxe-nos os cafés, era nitidamente uma senhora que não nos conhecia. O meu vinha sem adoçante e o teu vinha com açúcar, embora eu estivesse habituado a vê-lo com adoçante, vinham tipo banheiras e com pouca espuma do expresso e a senhora inquiriu: “Estão muito cheios?”, eu respondi afirmativamente e tu num frisson disseste “O meu assim está bom.”, talvez para não fazer desesperar a senhora, que convenhamos já tinha que voltar atrás para me tirar um café novo portanto podia perfeitamente tirar dois, porque os cachimbos daquelas máquinas têm duas aberturas e podem perfeitamente tirar dois cafés ao mesmo tempo, portanto era apenas o tempo perdido de tirar mais uma chávena mas elas costumam estar por cima da máquina do café e nem tínhamos dado por isso.

O meu café chegou e eu, sem perder tempo, olhei para a cremosidade da espuma dos expressos mexendo-a no sentido dos ponteiros do relógio como se perguntasse aos deuses o que nos reserva o futuro e então peguei no copo de água e despejei alguma na chávena perante o teu ar estupefacto:  “Então pediste um mais curto para fazeres isso?” e eu bebi o café tipo shot, que na realidade é a única coisa que bebo tipo shot porque não gosto de shots “Se estivesse cheio, não o conseguia arrefecer.” e tu deste a tua gargalhada, mas a de Terça ligeiramente desfazada da mística em que me envolvias.

Falámos de festas de aniversário e conversas impróprias até para nós, baralhei-te com uma conversa que ouvi de esguelha mas que na sequência frenética que é o meu descrever de acontecimentos dava a entender que tinha sido no Facebook, mas não, tu e eu sabemos que foi bem pior, foi ao vivo e a cores, ainda pensei abordar-te sobre o fascínio actual que os rissóis de leitão exercem sobre os outros mas esqueci-me porque estava mais entretido a falar de outra coisa ligada aos rissóis mas que tinha mais piada. Lamentámos que não estivesses comigo para dançarmos Gipsy Kings porque este amor llega asi esta manera, no tiene la culpa, amor de comprementa, amor del mes pasado , Bebele, bembele, bembele, Bamboleo, bambolea, Porque mi vida, yo la prefiero vivir asi.

Daí passámos para os amigos que são grandes malucos e a perspectiva da loucura numa mente adolescente face à nossa, achámos ternurento quando do nada estávamos a gozar com algo tão absolutamente kitsch e mau, e passámos para um sentimento de compaixão que embora não nos seja alheio, não nos é regular.

Veio a tosta, era de queijo e ainda bem, se levasse fiambre não a podia comer e a de queijo é mais barata e estamos em crise, vinha com batatas que costumamos partilhar mas eu sou um bocado lambão e nem ofereci nada e depois recitei-te metáforas e metáforas sem fim e tu dizias “Pára, vou vomitar, como é possível tanto cliché enfiado no mesmo sítio, mas de onde é que isso veio tudo?”, eu ria, chorava, chorava a rir, limpava o canto do olho e continuava de clichés em punho (ou em lábio?) e tu pedias clemência.

Tentei ir-me embora sem pagar, não porque seja caloteiro ou porque não tivesse dinheiro, mas porque estava tão inebriado de riso que nem me lembrei que naquele café as tostas não são de borla e as bicas também não.

Foste para casa, prometendo que o farias e eu voltei para o meu carro, olhei para o pacote dos correios que tinha ido levantar ontem, cujo talão para levantar na estação tinha só aparecido ontem mas tinha data de tentativa de entrega de sexta-feira e pensei “Precisava tanto de me rir.”, merci beaucoup mon choux.

Pet Peeves Threesome

Outubro 11, 2011

A realidade blogueira fascina-me, arrepia-me, enoja-me, comove-me e deprime-me ao mesmo tempo, um excelente veículo para dizer seja o que for, não deixa de ser mais um liceu gigante com cliques, concursos de popularidade e afins.

Há coisas que eu não percebo… os selos são uma delas, mas selo de quê? “Selo para um blog super-fofuxo”, mas isto serve para quê? (Sim, eu sei que pergunto o mesmo da Bimby, mas ontem vi-a a fazer créme brulée e já consigo perceber o conceito, agora os selos… poupem-me) Outras vozes podem pensar “Ah pois, não tens nenhum, isso é tudo inveja. Epá, poupem-me, uma coisa seria o Neil Gaiman dizer-me que aprendeu Português e que se ri quando me lê e aí eu daria gritos histéricos de fanboy, agora… um selo… hmm hmm, esperem aí enquanto eu abro o photoshop, meto uma imagem de gosto duvidoso, lambo-a com uma frase-feita que põe todos e o meu cão (paz à sua yalma) felizes com a vida e toca a distribuir… nas palavras do poeta: “Bitch, please…”, mas vá se faz o pessoal ficar contente e o planeta continuar no seu eixo, wohoo, siga p’ra bingo.

Agora a sério,  o maior prazer é ter alguém com quem partilho o meu dia-a-dia chegar e dizer que gostou de ler ou que deu umas grandes gargalhadas, isso faz-me sorrir e vale toda e qualquer auto-validação que um selo poderia dar, mas isso sou só e como vocês sabem, eu é mais bolos.

Outras coisas que eu não percebo são blogs de receitas apenas com as receitas sem qualquer input do(a) autor(a), leio aquilo e sabe-me a Tang, no fundo, no fundo, no fundo é reminisciente de algo que se assemelha a sumo de fruta mas quem está a beber sabe que não é a mesma coisa e já agora, é claro que os astronautas gostavam de beber Tang no espaço, não me parece que na altura eles tivessem escolhas gourmet para o seu palato (eles que viessem para os dias de hoje, até o raio das batatas fritas são gourmet e só porque vêm num pacote preto metalizado),  mas voltando à la vache froide, blogs que são um debitar de ingredientes e direcções sem qualquer outro tipo de texto são um enorme turn-off.  O que é muitas vezes fascinante é o que está por trás da receita, ou porque é de família, ou porque é a receita preferida do marido (excluam-se aqui as de cornflakes, se faz favor) ou então porque foi o bolo do primeiro aniversário da filha,  qualquer coisa que nos faz durante alguns parágrafos entrar no universo do autor, no seu dia-a-dia, na história parva que está por trás da compra dos ingredientes (ainda ontem eu dizia à menina do Pingo Doce que era tudo muito caro e que eu ia mas é levar no cabaz) ou então quando caiu tudo ao chão (tiramisú, 2002, não falemos mais nisso) ou porque um determinado sabor ou aroma evoca uma memória, mas qualquer coisa, qualquer coisinha para além de “150g de farinha, sal e pimenta q.b.”, se eu quiser isso, então compro aquelas revistas de cozinha que pouco mais têm do que isso e é para isso que elas servem.

E já agora, pior do que os blogs acima indicados, e aqueles com fotos de comida que são atrozes com luz branca, tirada às três pancadas e que parece vomitado ou comida de cães esmagada com um garfo, isso sim é assustador, não só me tira o apetite todo, como me faz clamar por lexívia para a córnea e me põe a soluçar compulsivamente enquanto digo “Mas porquê…”

E já agora, já que falamos de coisas para as quais não há aparente explicação, lembro-me de uma frase que li, num livro que não interessa o título, de um autor que não vem ao caso, “Ensinamos melhor aquilo que precisamos aprender.”, mas ainda na onda da poupança (sim, estamos em crise), blogam blogam blogam blogam e não as vejo a fazer nada, meio mundo a debitar postas de pescada e tralalá e depois quando assistes à realidade sem o glamour do technicolor dos bits e bytes é só ver (e rir), isto é tudo muito lindo escrevermos que somos umas pessoas ISpantosas e depois… hmm, o melhor é só comer as batatas.  Lembra-me outra vez o que me dizia mamãe quando se esgotavam os argumentos “Faz o que eu digo, não faças o que eu faço.”, podem até pensar “Deves ter cá uma moral…”, não nem por isso, mas pelo menos não ando a apregoar aos sete ventos porque sei que um dia destes levo com eles na tromba.


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